segunda-feira, 16 de abril de 2018

Chácara Pizza Bar


Uma atmosfera rural, uma casa de fazenda, a rusticidade iluminada por um forno a lenha. 

A estrada é de terra, mas a Chácara Pizza Bar fica pertinho do centro de São Sebastião da Grama, praticamente numa extensão da avenida principal da cidade.

Uma carta que acolhe pizzas clássicas e outras tantas ousadas. 

Porteira Aberta está no rol das inusuais e surpreende com molho de tomate fresco, escarola, calabresa, mozzarella de búfala e pesto de azeitona.

Na terra do consagrado torresmo do Carlão e do Laticínio Roni, tem redondas napolitanas mais do que respeitáveis.

Pra não dizer que só falei de flores, o forno é pequeno e esperar é preciso.

Serviço:
Estrada Anhumas, km 1
São Sebastião da Grama, SP
tel: 19 3646-3009

Um senhor bauru


Desde que o mundo é mundo, o bauru de lombo é coisa mais do que séria nesta província crepuscular. A devoção é tanta que chapeiros de final de semana reúnem amigos para uma esbórnia gastronômica nominada “bauruzada”. Desconheço outros lugares onde exista a “bauruzada”.

Bar do Formiga, Bar Canecão e Nosso Bar (o antigo), deliciosas lembranças!, foram estabelecimentos que marcaram época com baurus espetaculares. Quem provou algum destes tem o paladar gravado na memória gustativa. 

O lombo dormido uma noite no tempero, cortado na espessura que proporciona suculência e aquele tostadinho por fora. O queijo prato tem que ter as bordas crocantes (a foto é real!) extrapolando os limites do pão. Da hora, fresquinho, o pão francês abraça o recheio sem ser prensado. O tomate, nem verde tampouco tão maduro, deve ser fatiado não muito fino e receber pitadas de sal na chapa. Eu gosto do meu com cebola, mas não acho falta grave comer sem.

Poucas e boas casas deste torrão seguem os preceitos fundamentais do bauru elencados no parágrafo acima. Uma delas, recém-inaugurada, é O Sr. Bauru, do competente e exigente Ney Balla.

Ele sabe do riscado e não vacila: mete bala nos ingredientes de qualidade inferior. [eu estava lá e testemunhei a devolução à Balla de um queijo meia-boca que o fornecedor quis empurrar]

Manda Balla, Ney!

O Sr. Bauru —por enquanto— é só no delivery, todos os dias a partir das 18h.
Pelo WhatsApp 19 99233-4321 ou pelo iFood.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Parmesão de búfala

Novidade queijeira na sempre exuberante Serra da Paulista.

O agitado Fabio Pimentel incluiu um queijo tipo parmesão no portfólio de tesouros bufalinos do selo Montezuma.

Oito meses de maturação é o tempo de aprimoramento do redondo. Experimentos aos montes foram feitos para chegar à excelência láctica que este roliço escriba provou num fim de tarde junto com algumas garrafas de vinho Guaspari.

O FP gravado na superfície, contrariando quem diz que é um capricho personalista do Fabinho, remete à Fazenda Paineiras, o nome da propriedade onde fica o laticínio.

terça-feira, 20 de março de 2018

Glenda



“A vida me deu tanto, Deus foi tão generoso comigo que eu tenho que retribuir”.

Glenda Maria Sabbag da Silva, inteligente, obstinada, profissional de sucesso, vocacionada para ensinar e fazer o bem.

Neta de libaneses, paulista de Novo Horizonte, graduada em Ciências e Matemática pela Unesp de Marília.

No período da faculdade, Glenda trabalhou numa seguradora para se sustentar longe dos pais. Conseguia se manter e ainda ajudava financeiramente os genitores.

Nessa época, ela conheceu Durval, funcionário do Banespa. Casaram-se quando Glenda ingressou no magistério estadual.

Aterrissar em São João da Boa Vista em 1974 foi contingência da carreira do marido. Aqui se fixou, aqui nasceram seus dois filhos biológicos, aqui adotou mais três filhos em circunstâncias diversas.

Nos Crepúsculos, antes de ser admitida no Banco do Brasil em 1981, deu aula em várias escolas, notadamente no grupo Santos Cabral, onde trabalhou por mais tempo e onde era mestra das crianças órfãs do Lar Santo Antônio.

Estabelecida na lida bancária, a falta dos alunos e da lousa era um sentimento desconfortável. Supriu essa carência ministrando, nos finais de semana, reforço de Matemática aos meninos do orfanato.

Compartilhar conhecimento, pra ela, sempre foi essencial. Pequenos círculos de jovens eram acolhidos na mesa de jantar de Glenda em estudos preparatórios para concursos. Glenda embolsava a fortuna da gratidão eterna de muitos que conquistavam o sonho do emprego estável.

Quando do fechamento do Lar Santo Antônio, oito meninos, maiores de 14 anos, ficaram ao léu.

O aluguel de uma casa para eles saiu do bolso dela; empregos para todos saíram do esforço e da rede de contatos dela. O provimento material foi pouco perto do que ela mais transmitiu aos moleques: integridade.

Glenda se orgulha destes oito afilhados: “Sem exceção, todos acharam seu caminho. Todos são gente”.

Entre 2000 e 2007, ela rodou, pelo banco, por São José do Rio Preto, Mirassol e Limeira. Voltar a São João, aposentada, foi estímulo pra mergulhar de volta na labuta nobre de ensinar Matemática a concurseiros, sem nada ganhar monetariamente.

Suas classes abrigam candidatos de qualquer origem social, mas é clara a atenção extra dela aos mais carentes.
Está na casa das dez centenas os que, em algum momento, absorveram os ensinamentos da professora Glenda Sabbag. Enorme parcela destas 1.000 pessoas teve a vida mudada por um novo emprego.

Também no ambiente corporativo, ela combateu o bom combate. Os embates se davam com gestores quando Glenda achava que colegas desafortunados e/ou menores-aprendizes eram vítimas de decisões injustas. E por falar em menor-aprendiz, essa instituição do Banco do Brasil, não foram poucos os que ganharam um norte profissional pelas orientações dela.

Numa era de tanta falação e brigas retóricas, mais Glendas fariam deste mundo um lugar menos árido. Glenda é destes raros seres iluminados, talhados para fazer mais e melhor.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Gringo Sushi&Bar


Um venezuelano do Caribe —Ilha Margarita—, descendente de libaneses, fazendo comida japa no Brasil. Em São João da Boa Vista. Na Mantiqueira.

Trinta anos, Tarek El Ladin Hazime, filho de mãe brasileira, é o Gringo. Ele é mais um, entre milhares de seus compatriotas, que deixou a Venezuela para buscar oportunidades que lhe foram tiradas pelo desastre do chavismo.

Com uma referência de amizade nesta província crepuscular, Gringo desembarcou em janeiro de 2015 no aeroporto de Guarulhos. Tinha R$ 2,00 —isso mesmo, dois reais— no bolso e gana para dar uma virada na vida. O ônibus para São João foi pago com a venda de três camisetas que ele tirou da mala. Antes de arranjar um bico no Bento’s e um cômodo para morar, ele dormiu dois dias na praça Joaquim José.

Ajudante de cozinha, garçom, mototaxista e segurança. Gringo se virou como pôde. Ralou, conseguiu relativa estabilidade, trouxe a mulher Emily e conta como fixou seu objetivo de vencer longe da terra natal: “Quero trabalhar 100 horas por semana, por 10 anos, no meu próprio sonho, ao invés de trabalhar 40 horas por semana, por 80 anos, no sonho de outrem”.

Da paixão pela comida japonesa e dessa vontade de empreender, nasceu o Gringo Sushi&Bar, uma casa de essência nipônica, mas condimentada por temperos caribenhos. Uma coisa com uma pegada Tóquio-Jamaica.


O post traz fotos de algumas releituras interessantes que ele ousa oferecer. 
Mesmo não sendo fã do cream cheese no rango japa, eu gostei.


1. Kaki-shakê: cubos de salmão ao molho de ostra, alho-poró e raspas de limão siciliano. A base é uma colher de cream cheese;
2. Carpaccio de Salmão: servido com shoyu da casa e gergelim;
3. Dyo de Camarão: o crustáceo é envolvido com lâmina de abacate, servido sob couve crispy e pimenta;
4. Pantanal Black (que nome é esse?!): salmão defumado, cream cheese e pepino.

Um venezuelano do Caribe —Ilha Margarita—, descendente de libaneses, fazendo comida japa no Brasil. Repito o trecho do primeiro parágrafo para finalizar dizendo que de um cara assim tão fusion só poderia sair uma cozinha fusion. Respeitável cozinha fusion.



sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A Casa do Pastel


PASTEL, quem não gosta?
Quem não tem um pastel de estimação guardado nas memórias afetivas?
Quem não tem um pastel de feira pra chamar de seu?

Cá nas plagas crepusculares temos uma pastelaria que está de portas abertas desde 1992. 25 anos [bem]servindo esse salgado frito que é um ícone da cozinha brasileira. 

Ali nas cercanias do terminal urbano, pertinho da Ademar de Barros, no bochicho do comércio popular, está fincada A Casa do Pastel, capitaneada pelo multitarefas Marco Antonio Moraes.

Jornalista de alma e de diploma, Marco, hoje também professor da UniFAE e assessor de imprensa da Prefeitura de Águas da Prata, já trabalhou em grandes veículos de mídia. Mesmo rodando por aí, ele nunca deixou a pastelaria, onde a simplicidade das instalações abriga uma preocupação obsessiva com o produto. Farinha de primeira qualidade, fritura na gordura vegetal que proporciona um pastel sequinho, recheios sem miséria e temperos testados à exaustão.

Inaugurar A Casa do Pastel, um quarto de século atrás, foi mais do que empreendedorismo. Marco quis com o negócio, também, manter uma tradição familiar. O pai dele, Antonio Moraes, foi pasteleiro por décadas. No local onde hoje está a UPA, nas imediações do cemitério, seu Antonio foi dono da barraca na qual era ofertado o melhor pastel de feira da província. Moleque inquieto, Marco aprendeu e se apaixonou pelo ofício do pai. 

Vou menos do que gostaria À Casa do Pastel —estacionar no pedaço é um saco—, mas sempre que estou flanando em busca de bugigangas na Chinatown da Ademar de Barros dou uma corridinha para revisitar a digna, longeva e consistente arte pasteleira da família Moraes.


O pastel da foto é um dos campeões de pedidos: Especial, que leva bacon, presunto, mozzarella, milho e catupiry. Um primor entre tantos no apetitoso rol de clássicos e inventivos que contempla 43 sabores.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Tio Bob

Aprendiz de dança de salão, ele não recusa convites para arrastar o pé em bailes da região.

Dia destes, véspera de feriado, Robert, o popular Tio Bob, atendeu o chamado de uma amiga para uma noite de chacoalhos num forró em Várzea Larga.

Zeloso com a fachada, o homem se alinhou para a balada intermunicipal: camisa de seda, colete, calça risca de giz e sapatos envernizados. Tudo no preto básico da elegância.

No horário combinado, a van estaciona no portão da casa dele. Sim, a curta viagem seria no veículo coletivo contratado pelos festeiros.

Da posição ao lado do motorista, salta do carro a assessora que recolhe o dinheiro e abre a porta para os passageiros. Tio Bob ficou estupefato com a figura e apreensivo com o que iria encontrar no evento dançante em Várzea Larga.

A anciã, co-piloto da van, ostentava um rosto traçado de rugas. Excessivas rugas. O cabelo era preto e liso e a maquiagem se resumia a um batom vermelho-bordel. O nariz adunco, notável, realçava a feição daquela exótica e assustadora mistura de Cher com Anjelica Huston. A ousadia —e o mau gosto— aparecia também no figurino: a senhora estava enfiada num microvestido vermelho e laranja estampado com motivos florais e ornado com babados de renda. Robert, um sujeito de fé, se benzeu com a visão apocalíptica.

No interior da condução a coisa ficou ainda mais apavorante. Meia dúzia de moças embaladas em indumentárias próprias da profissão mais antiga do mundo. O cheiro doce de perfume barato infectou a viagem de pouco mais de 20km. Umbigos e cofrinhos eram mostrados em profusão. O teor das conversas enveredava por altos níveis de picância. Tio Bob, temente a Deus, fez o trajeto rezando baixinho.

Ele, na chegada, botou reparo na recomposição de uma gordinha quando a van parou na porta do Forró São Judas. A mulher avantajada subiu no salto plataforma e resgatou com os dedos em forma de pinça o shortinho escuro de tecido mole que se aninhara como um fio dental nas vergonhas dela. Robert, seguidor dos preceitos bíblicos, pediu proteção para Nossa Senhora das Pinçadas Impossíveis.

Num buraco na parede, Tio Bob comprou o bilhete para o bate-coxa. Quando lhe cobraram R$ 5,00 ele teve a certeza da enrascada mequetrefe em que se metera. As “boas-vindas” na portaria do recinto vinham de uma funcionária com cara de jagunço. Lá dentro, sobre um chão de terra batida e sob bandeirolas puídas de festa junina as Marias-Bonitas esperavam a abordagem de seus Lampiões. Vários destes Virgulinos trajavam bermudas, camiseta cavada e chinelos.

Naquele ambiente pecaminoso e hostil, o devoto Robert caiu de joelhos pedindo a intercessão do santo que dava nome ao rala-bucho para sair dali.

Sabe-se lá como, ele conseguiu escapar de Sodoma e Gomorra. Dizem que naquele fim de noite Tio Bob foi visto retornando pra casa num ônibus da Rápido D’Oeste. Numa das mãos, o terço, na outra, um croquete de rodoviária.


em tempo: crônica baseada numa história real; a ilustração do post saiu da caneta do protagonista da epopeia.

sábado, 4 de novembro de 2017

Lynn Lahham


Boas histórias e a expectativa de comer me causam ansiedade. É por isso que eu cheguei às 18:15 num encontro marcado para quinze minutos mais tarde.

Bisher Midani é quem dá as boas-vindas no portão da confortável casa na Vila Valentin.

Nos aboletamos, Laurinho estava comigo, no sofá da sala enquanto a comida era preparada. Da cozinha vinha aquele perfume sedutor dos temperos do Oriente Médio. 

Inebriado pelos aromas, minha espera era pelos pratos e também para conhecer Lynn Lahham, esposa de Bisher e artista de forno e fogão.

Imaginava-a condicionado por estereótipos. Imaginava uma senhora de hábitos contidos, econômica nos sorrisos e que ostentasse vestes sóbrias e tradicionais. Nada disso!

Lynn chegou contrariando meu modelo mental. Vinte e oito anos, bonita, extrovertida, grudada num iPhone e ocidentalmente vestida. E sabe posar para fotos.

O casal sírio escolheu São João para criar a filha Celine, 5 anos. Distantes da complicada situação política na terra natal, eles estão felizes morando bem longe da guerra, neste torrão de notáveis crepúsculos. Bisher está trabalhando na área de exportação de uma empresa sanjoanense.

E por que o Brasil, Bisher? 
“Pesquisei muito na internet sobre o país de vocês. Um país pacífico, sem grandes conflitos. Um país com enorme potencial. E principalmente por ser uma nação de pessoas amigáveis e tolerantes com estrangeiros”. 

Lynn conta que, ao contrário da mãe, cozinha por prazer. A culinária, pra ela, é uma terapia. “As panelas me fazem bem”. 

O que era hobby passou a ser fonte de renda depois que alguns amigos crepusculares provaram a gastronomia dela em jantares fechados. As encomendas, o boca a boca e o Facebook ajudaram a impulsionar o Damascus na cidade e na região. Sim, na região. “Temos clientes de Poços e de outros lugares que vêm buscar nossa comida”.

O sucesso é tanto que abrir um restaurante está nos planos de Lynn. Hoje, os pedidos são por telefone ou mensagem e a retirada é no local em horário combinado.

Na noite da última quarta-feira, Lynn e Bisher foram generosos com este escriba glutão e seu filho. Nos acolheram com uma mesa de exclamações condimentadas. Tabule e quibe cru são clássicos. Clássica também é a esfiha, a esfiha! De outro planeta, a melhor que já comi nos meus sofridos 47 anos. Ainda: shawarma de frango e kabsa. Este último é um arroz com temperos sírios, carne de cordeiro e castanhas. 

Quem me acompanha nas redes pode imaginar o tamanho da minha satisfação com essa virtuose num legítimo lar árabe. 

Uma pergunta clichê merece uma resposta clichê:

—E da cozinha brasileira, Lynn, o que você mais gosta?
—Pão de queijo, churrasco...

Comer fora é programa de fim de semana da família Midani.

—Pizza, adoramos pizza.
—Qual é a melhor pizzaria de São João, Lynn?
Ela menciona dois nomes.
—Posso citar no texto as duas?
—Não, melhor não. 

As gargalhadas seguidas à negativa desarmaram-me para questionar a razão do sigilo e ratificaram o quão erradas estavam minhas pré-concepções estereotipadas. 

Shukran, Lynn, shukran!

Serviço: pedidos pelo WhatsApp (19) 99997-5031




quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Dona Lindona

Um boteco estrelado pra esta Sanja crepuscular. É o que eles queriam. Bons de copo, cheios de ideias e atrás duns trocos, Zerbetto Brothers —Celso e Carlão—, Gil Sibin, Sérgio Tché Bozzolo e Sonia Sueli de Souza puseram na cachola que a night destas bandas caipiras nunca mais seria a mesma. Estávamos no final dos anos 70 e o Tekinfin ainda era um bar incipiente.

O local escolhido foi um subsolo puído lá na baixada da rua São João. Por razões óbvias, a taberna foi batizada de Porão.

E o cardápio? Nada de convencional. Drinques, lanches e petiscos com pedigree do melhor da Pauliceia desvairada.

A criação deste menu consumiu dias de peregrinação pelos points que ferviam na noite paulistana. Cardápios foram surrupiados de cafés do Bexiga e de pubs dos Jardins. É falso dizer que a pesquisa foi chata. 

Após a maratona de cartas tungadas e acepipes devorados, o estado-maior do Porão se reuniu num etílico benchmarking para bater o martelo acerca do menu.

Martelo batido, entre as escolhas estava o sanduíche beirute. Prevenidos, os empresários da noite mandaram vir da metrópole toneladas da alma do beirute: o pão sírio dos “brimos” da 25 de Março e adjacências.

Dias antes da abertura da casa, percebeu-se que os pães estavam deteriorados. Todo o “oriente médio” estava tomado por um asqueroso bolor. Daqueles bem verdes e aveludados.

A rede de contatos foi acionada pelo vozeirão do Celso Zerbetto. A emergência pedia o socorro ligeiro da sogra paulistana. Dona Lindona ouviu os clamores via DDD:

—Dona Lindona, sogrinha do coração, pelamordeDeus! desce na 25 e manda pra cá trocentas dúzias de pão sírio. Vamos abrir o boteco e o menu tem que estar completo.

Solícita com o genro, Dona Lindona atendeu as preces do vozeirão e no dia seguinte eram descarregadas nas imediações da Estação trocentas dúzias de... pão folha. What? Árabe, finíssimo, do tamanho de uma toalha de rosto. O pão era sírio, mas inapropriado para o beirute.

Celsão não se zangou com o equívoco e teve um insight gastronômico genial: estendeu a “toalha” na mesa, cobriu-a com maionese, tomate, alface, rosbife, queijo, e dobrou sucessivamente a folha síria recheada. O insólito embrulho ainda padeceria de outra invencionice zerbettiana: foi pincelado por fora com densas camadas de geléia de morango. As testemunhas da grande sacada explodiram em gozo ao provar o sanduba. Nascia ali, naquele típico acaso das grandes invenções, o Dona Lindona, um ícone da gastronomia sanjoanense. Um tesão agridoce!

Anos depois, após o Porão baixar as portas, a ferveção na Sanja-night era no Salamalec. A viuvada do Dona Lindona pediu ao proprietário da nova casa que introduzisse a iguaria no cardápio. Conseguiram. Celso Zerbetto passou o know-how da lenda embrulhada à cozinha do Salamalec. Os glutões agradeceram. Bem verdade que nessa época o Dona Lindona foi vítima de uma herege variação. Tiveram a ousadia de substituir a geléia por requeijão. Os fundamentalistas protestaram, em vão, contra a opção queijeira. 

Porão e Salamalec, hoje, apenas vivem na memória desta Sanja; Celso Zerbetto só quer saber de pedras nobres e culinária chinesa. Este escriba, saudoso e faminto, enche a boca d’água torcendo para que algum bem-aventurado restaurateur resgate o Dona Lindona e o devolva ao circuito botequeiro desta província crepuscular.

Em tempo: o criador escreve ao cronista para dizer que o requeijão era opção do cliente desde sempre. Como eu conheci e gostei do Dona Lindona com geléia de morango, acato a informação do Celso, mas mantenho a “herege variação” na crônica, puxando pro meu paladar pessoal e fazendo uso de uma licença poética. 

sábado, 28 de outubro de 2017

Isaías Valim

Referência nacional em cortes de cordeiro, Isaías Valim não para. Ele tá sempre em movimento a serviço da boa mesa.

Do seu pequeno sítio, minuciosamente estruturado para manipulação, agora sai uma interessante linha de defumados artesanais: lagarto com ervas finas, pernil de cordeiro e copa-lombo.

E na Donatella, a pizzaria do DER comandada por Anor, filho de Isaías, estas joias gastronômicas são ofertadas em pizzas e porções.

O meu respeito e admiração por esse sanjoanense estudioso, determinado e inovador que cria, abate, corta, tempera, defuma e faz a alegria daqueles que acreditam que uma refeição prazerosa é item mais que essencial da cesta básica da existência.